As palavras certas
Gostava de descobrir as palavras certas para expressar os meus sentimentos, mas existirão “palavras certas”? Partindo do princípio que eu as descobria, gostaria também de as saber ordenar, de as alinhar umas nas outras de forma a que todas juntas fizessem sentido. Ou, melhor ainda, fizessem sentir...
Assim, um amontoado de letras e símbolos passaria a representar algo mais, um pedaço da minha Alma, um retrato do meu estado de espírito no momento em que escrevesse, ou reproduzisse, essas palavras. Através das frases formadas por essas construções de palavras eu poderia rever os meus sonhos, as minhas dores, os meus Amores e desamores e nunca mais perderia todas essas emoções e sentimentos.
Se existissem essas palavras certas, como tudo seria mais fácil e prático. Usá-las-ia a meu bel-prazer. Ao capturar as sensações boas e más da minha Alma, poderia simplesmente aproveitar-me dessas palavras para esvaziar, armazenar, entregar, ceder, vender, alugar ou emprestar todos os meus sentimentos. Como se estes não me pertencessem, como se eu não lhes pertencesse. Tornar-me-ia mais livre, mais solto, desprendido. Talvez até desse por mim a Amar as palavras, pelas palavras e através das palavras. Se calhar seriam estas a razão do meu sentir e do meu viver.
Não me preocuparia mais com as dores do Amor...não passam de palavras que eu, que saberia quais são as certas – nesse Mundo ideal – poderia mudá-las e usar-me delas. E não há nada que uma borracha ou corrector não resolva!
Não ficaria dependente da ilusão do Amor. As palavras, de tão certas que seriam, retratariam tal e qual tudo o que rodeia esse nobre sentimento – ou será apenas uma palavra? – de forma a que dele não mais necessitasse. Para quê? Bastar-me-ia, em caso de necessidade entenda-se, ler e reler essas palavras, quantas vezes bem entendesse, para suprir essa sensação de vazio.
Já vejo e penso mil e um usos para a minha descoberta. Essas palavras certas...
Acontece que essas palavras, as certas e aquelas que não são assim tão acertadas, têm uma vida própria, têm uma vontade própria. Surgem quando lhes apetece, da forma que lhes apetece e seguem pelo caminho que lhes interessa. E nós? Deixamo-nos levar. Pelas palavras, assim como pelos sentimentos. Não somos seus donos nem os podemos comandar.
Assim, por melhores que sejam as nossas intenções, por melhores que sejam os caminhos que racionalmente escolhemos para as nossas palavras e sentimentos, acabamos por ter de nos render ao caminho que nos é imposto por ambos. O que nos leva a escrever, falar e sentir não aquilo que queremos, mas aquilo que estes querem.
Talvez a vida fosse mais simples se eu descobrisse as palavras certas. Ou até se estas existissem. Porventura seria ainda mais fácil se eu gerisse dessa forma todos os meus sentimentos e os Amores da minha vida...
Como assim não sucede, entrego-me às palavras para que estas me levem...

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