A meio da noite
Acordei a meio da noite sobressaltado. Ainda meio tonto e com a boca seca, fruto de uma noite mais “regada”, senti que algo se passava de errado. Olhei para o lado e não a vi. Levantei a cabeça, que latejava como se alguém me pisasse o crânio, e procurei-a em volta. Chamei-a, ou julgo que assim fiz, pois as minhas memórias daquele momento não são as mais perceptíveis.
Dirigi-me à casa de banho. Porque precisava, porque a queria encontrar e, também, porque algo me parecia errado. Algo me apoquentava a ponto de ir tomando consciência da realidade.
Mal abri a porta e vi o seu corpo imóvel, estático, inerte, foi como se o meu corpo, mente e Alma tivessem ficado sóbrios por artes mágicas. Tentei reanimá-la por todos os meios que eu conhecia e não conhecia. Liguei para todos os que me poderiam ajudar e para aqueles que nada poderiam fazer. Segurei-a, amparei-a, abracei-a. Como se a quisesse segurar comigo. Como se assim pudesse evitar que alguma coisa lhe acontecesse.
Subitamente olhei para o lado e o meu filho de dois anos, acordado pelo meu desespero, juntava-se a mim numa total impotência que nos lançou numa aflição horrível. Deparávamos ambos com o corpo de alguém que muito queremos e não sabíamos fazer o que devíamos e fazíamos o que podíamos.
Entre tanto choro, gritos de revolta e lamentos, a ajuda acabou por chegar. Tarde demais? Acho que nunca saberemos... Chegado ao Hospital, não quis – não quero – acreditar no pesadelo real em que a minha vida se havia transformado. De um momento para o outro. Depois de tantos exageros da minha parte, seria a minha cara-metade a pagar por tudo aquilo que eu fiz.
O diagnóstico era, é, grave. Um Acidente Vascular Cerebral, um aneurisma, muito tempo de espera, tudo junto tornava a situação praticamente irreversível. Aguardo apenas o veredicto final. Aguardo a notícia que me negarei a ouvir. Aguardo o milagre que sei que não chegará.
Já não penso no futuro. Que futuro? Roubaram-me o futuro. Penso nas razões, nas justificações, nos porquês da vida. E respostas? Não encontro...Por isso aguardo...Não sei mais porquê, nem para quê...
Esta situação não se passou comigo. Mas passou-se com alguém muito próximo. E fez-me pensar...Na vida, no que eu faria se fosse comigo, nos problemas que invento diariamente para me queixar dos azares que a vida me traz. E chego à conclusão que não tenho quaisquer razões para maldizer a minha vida, que sou um abençoado, um afortunado.
E, no entanto, passado que será este momento de clarividência, sei que olharei novamente em frente e, esquecendo novamente o Mundo à minha volta, redescobrirei todas as justificações para me lamentar quotidianamente...
