Monday, August 29, 2005

A meio da noite

Acordei a meio da noite sobressaltado. Ainda meio tonto e com a boca seca, fruto de uma noite mais “regada”, senti que algo se passava de errado. Olhei para o lado e não a vi. Levantei a cabeça, que latejava como se alguém me pisasse o crânio, e procurei-a em volta. Chamei-a, ou julgo que assim fiz, pois as minhas memórias daquele momento não são as mais perceptíveis.

Dirigi-me à casa de banho. Porque precisava, porque a queria encontrar e, também, porque algo me parecia errado. Algo me apoquentava a ponto de ir tomando consciência da realidade.

Mal abri a porta e vi o seu corpo imóvel, estático, inerte, foi como se o meu corpo, mente e Alma tivessem ficado sóbrios por artes mágicas. Tentei reanimá-la por todos os meios que eu conhecia e não conhecia. Liguei para todos os que me poderiam ajudar e para aqueles que nada poderiam fazer. Segurei-a, amparei-a, abracei-a. Como se a quisesse segurar comigo. Como se assim pudesse evitar que alguma coisa lhe acontecesse.

Subitamente olhei para o lado e o meu filho de dois anos, acordado pelo meu desespero, juntava-se a mim numa total impotência que nos lançou numa aflição horrível. Deparávamos ambos com o corpo de alguém que muito queremos e não sabíamos fazer o que devíamos e fazíamos o que podíamos.

Entre tanto choro, gritos de revolta e lamentos, a ajuda acabou por chegar. Tarde demais? Acho que nunca saberemos... Chegado ao Hospital, não quis – não quero – acreditar no pesadelo real em que a minha vida se havia transformado. De um momento para o outro. Depois de tantos exageros da minha parte, seria a minha cara-metade a pagar por tudo aquilo que eu fiz.

O diagnóstico era, é, grave. Um Acidente Vascular Cerebral, um aneurisma, muito tempo de espera, tudo junto tornava a situação praticamente irreversível. Aguardo apenas o veredicto final. Aguardo a notícia que me negarei a ouvir. Aguardo o milagre que sei que não chegará.

Já não penso no futuro. Que futuro? Roubaram-me o futuro. Penso nas razões, nas justificações, nos porquês da vida. E respostas? Não encontro...Por isso aguardo...Não sei mais porquê, nem para quê...

Esta situação não se passou comigo. Mas passou-se com alguém muito próximo. E fez-me pensar...Na vida, no que eu faria se fosse comigo, nos problemas que invento diariamente para me queixar dos azares que a vida me traz. E chego à conclusão que não tenho quaisquer razões para maldizer a minha vida, que sou um abençoado, um afortunado.

E, no entanto, passado que será este momento de clarividência, sei que olharei novamente em frente e, esquecendo novamente o Mundo à minha volta, redescobrirei todas as justificações para me lamentar quotidianamente...

Thursday, August 11, 2005

Queixas...

Há uns dias atrás dei por mim a reflectir acerca das queixas do Mundo. Não falo da fome, da guerra, da desigualdade financeira do globo terrestre. Deus perdoar-me-á, mas desta vez referia-me ao Mundo que me está próximo. Aos meus amigos, familiares, colegas, conhecidos.

Uns queixam-se do trabalho que têm. Da sobrecarga do mesmo nas suas vidas, do desinteresse que este provoca, do vazio em que este nos deixa. Curiosamente reparei que, do lado diametralmente oposto, outros se queixavam do vazio deixado pela falta do mesmo trabalho. Deixou-me intrigado...

Uns queixam-se de não ter tempo para nada, outros se queixam de não ter nada para ocupar o tempo.

A partir daí, debrucei-me sobre outras queixas. Reparei que alguns se queixavam da dificuldade que supostamente teriam em se comprometer. Com alguém, com uma carreira, com uma vida. Ao mesmo tempo outros se queixavam que, por se quererem comprometer, entrariam em colisão com outras partes avessas a esse passo. Curioso...

Nas matérias do Amor descobri que uns se queixam da falta de um Amor. De um Amor que lhes dê atenção, carinho, paixão. Na mesma hora outros se queixam da falta de um Amor a quem possam dar paixão, atenção e carinho. Uns queixam-se que nada recebem, outros se queixam de ter Amor a mais para dar. Uns queixam-se de nunca terem encontrado o Amor da sua vida, outros se queixam de ter Amado demais. Assombroso...

Ninguém me pareceu contente e todos me pareceram motivados nessas suas queixas. Todas elas legítimas e honestas e, no entanto, tão díspares. A primeira reacção que tive foi que andaríamos desencontrados uns dos outros. E que, algures, encontraríamos alguém que partilhasse as nossas queixas. E que nos ajudaria a satisfazê-las. Só que depois surgiram-me inúmeras dúvidas. Será da nossa natureza a queixa? Será que o que nos faz queixar sistematicamente é verdadeiramente a razão das nossas queixas? Ou serão essas pseudo-razões um mero pretexto para fazermos aquilo que sabemos fazer melhor: queixarmo-nos?

Estaremos condenados, uns mais do que os outros, a procurar exaustivamente motivos para nos queixarmos da vida? Teria a vida alguma graça sem razões para nos queixarmos? Devemos nos resignar a estas queixas e aceitar simplesmente o facto que sempre nos queixaremos?

São tantas perguntas para as quais não tenho resposta. Ninguém terá uma resposta? Se a tiverem digam-na e eu me queixarei de a não ter encontrado. Se a não encontrarem, juntem-se a mim e ajudem-me nesta queixa.

Monday, August 08, 2005

Máscaras...

Eu tenho um problema...São imensos os temas que passam pela minha cabeça e que não os passo ao papel – neste caso ao computador. Chego quase a escrevê-los parágrafo por parágrafo mas, não sei se feliz ou infelizmente, nunca os concretizo.

Depois de ter lido o excelente texto do meu amigo Alberto Mates, senti-me na obrigação de me deslocar ao armário cerebral onde guardo os meus textos, e retirar de lá o texto agora empoeirado que tantas vezes pensei em escrever. No fundo abordo a mesma questão, utilizando apenas palavras diferentes, talvez mais subtis, ou até hipócritas se preferirmos.

Gostava de escrever sobre máscaras. O que são máscaras? Caraças que colocamos sobrepostas na nossa cara e que nos dão outra aparência. Disfarces que nos permitem circular irreconhecíveis nos nossos meios. Maquilhagens utilizadas para escondermos o que nos vai no fundo da Alma. Tantos tipos de máscaras...Umas visíveis, outras invisíveis. Umas externas, outras internas. Umas que usamos conscientemente, outras que usamos independentemente da nossa própria vontade.

Quantas não foram as vezes em que me entretive a pensar que máscaras circulam à minha (nossa) volta. Quantas vezes me perguntei quem se esconde atrás dessas máscaras. Quantas vezes quis revelar os segredos que essas máscaras escondem, deixando vir ao de cima o meu espírito curioso e sedento de revelações.

Só que muitas das máscaras não caem, estão presas, coladas às nossas faces de tal maneira que já nem sabemos qual é o nosso verdadeiro rosto. Habituámo-nos a elas, fazem parte do nosso dia a dia, convencemo-nos que estas fazem parte de nós, julgamos que sem elas já não sabemos viver. E talvez já não o saibamos.

E vamos mudando de máscara ao longo das horas, dos dias, dos meses, dos anos que nos passam em cima. E, por muito que queiramos mudar, que queiramos assumir o nosso rosto, o nosso íntimo, a verdade, damos por nós a escolher outra máscara que simule tudo aquilo que nós não somos capazes de viver.

Quando se cruzarem com outras pessoas, com conhecidos, com amigos - próximos ou distantes - com a vossa família, olhem bem fundo nos olhos uns dos outros. Talvez acabem por descobrir que algures existe uma máscara que não se consegue apagar.

Eu uso máscaras. E vocês?

P.S. - Meu querido Amigo e distinto Mates, graças a Deus que nem todos escrevem sobre as mesmas coisas e têm as mesmas opiniões senão não discutiríamos. E pode também dar graças de não discutir consigo próprio como algumas pessoas...