Thursday, February 16, 2006

34º Aniversário

Há dois dias atrás fiz 34 anos. 34 anos!!! Nunca me imaginei chegar aqui. Não sei se por uma tendência neuroticamente hipocondríaca, se porque simplesmente nunca me imaginei a crescer. Ainda não imagino...

Ainda me parece que há dois dias atrás comemorava os meus 12, 13, 14 anos. Rodeado de bombas de carnaval, de brincadeiras, de amigos. Mas, afinal de contas, já passaram esses anos e mais 12, 13, 14 e por aí adiante – escuso de me alongar pois a conta já vai alta.

De há já algum tempo a esta parte, perdi grande parte do meu entusiasmo por festas. E, quando se trata de comemorações do facto de eu ir envelhecendo, as últimas réstias de algum entusiasmo que eu poderia ter desaparecem por completo. Porque raio hei-de eu festejar as dores nas costas, os cabelos brancos – tenho poucos graças a Deus – a falta de energia e a falta de vontade para festas? Prefiro esquecer a data e deixá-la passar devagarinho. Para ver se ela não me nota, se não repara em mim. Pode ser que os anos passem e eu me mantenha sempre com a mesma idade. Ainda sonho? É das poucas coisas que sobram da infância...

Enfim, como há pouco tempo escrevia noutro texto, as palavras levam-nos por caminhos não escolhidos e eu não queria escrever nada disto. Quer dizer, não era nada disto que queria partilhar convosco. Simplesmente saíram-me as palavras e eu não fui suficientemente rápido para as apanhar e devolvê-las à minha Alma.

Mas afinal o que é que eu queria escrever? Queria escrever que sou um homem de sorte. Mais velho, mais cansado, porventura mais rabugento, mas cheio de sorte.

Estou a milhares de quilómetros de distância de parte da minha família, da maior parte dos meus amigos, de pessoas que muito significam para mim. E, no entanto, pude presenciar inúmeras formas de afecto por parte de tantas pessoas, podendo afirmar, sem a mínima dúvida, que apesar de tudo passei este meu aniversário acompanhado por tanta gente.

Pelas pessoas que me ligaram, escreveram, enviaram mensagens. Algumas que eu esperava, outras que me surpreenderam. Pelas pessoas que se esqueceram da data – como eu me esqueço de tantas datas de outras pessoas – mas que estão sempre presentes. Pelas pessoas que fizeram questão de se esquecer e que vão se esquecendo. Pelas pessoas a quem eu quis dar um abraço naquela data. Pelas pessoas com quem gostaria de ter bebido um copo. Pelas pessoas das quais sinto saudades.

Muitas pessoas estiveram presentes neste meu dia. Até as que estiveram ausentes...Porque as levo comigo para onde quer que eu vá, porque tudo aquilo que eu hoje sou não o seria sem o seu contributo, sem a sua participação neste livro que vamos escrevendo vida afora, porque deixaram uma marca bem forte no meu coração e na minha vida, tão grande como a que eu espero ir deixando nessas pessoas.

Por isso os seus gestos, simples ou elaborados, espontâneos ou pensados, originais ou banais tocaram-me. Porque sinto da parte de toda essa gente um sentimento muito genuíno que me conforta o coração. Nada mais me enriquece do que saber que toquei de alguma forma, em algum momento, essas pessoas. E elas retribuem-me da forma mais sentida. Cada qual à sua maneira...

Como eu ia dizendo...Sou um homem de sorte...Os anos passam, os problemas andam por aí...para a frente e para trás, para cima e para baixo – como aliás tem de ser...para dar graça à vida – e eu vou enriquecendo. Com a amizade, carinho e Amor que semeei - e faço questão de continuar a semear - sem qualquer intenção de obter frutos, e que se transformam nas mais belas flores que me acompanham a vida dia após dia.

Assim talvez valha a pena envelhecer...

As palavras certas

Gostava de descobrir as palavras certas para expressar os meus sentimentos, mas existirão “palavras certas”? Partindo do princípio que eu as descobria, gostaria também de as saber ordenar, de as alinhar umas nas outras de forma a que todas juntas fizessem sentido. Ou, melhor ainda, fizessem sentir...

Assim, um amontoado de letras e símbolos passaria a representar algo mais, um pedaço da minha Alma, um retrato do meu estado de espírito no momento em que escrevesse, ou reproduzisse, essas palavras. Através das frases formadas por essas construções de palavras eu poderia rever os meus sonhos, as minhas dores, os meus Amores e desamores e nunca mais perderia todas essas emoções e sentimentos.

Se existissem essas palavras certas, como tudo seria mais fácil e prático. Usá-las-ia a meu bel-prazer. Ao capturar as sensações boas e más da minha Alma, poderia simplesmente aproveitar-me dessas palavras para esvaziar, armazenar, entregar, ceder, vender, alugar ou emprestar todos os meus sentimentos. Como se estes não me pertencessem, como se eu não lhes pertencesse. Tornar-me-ia mais livre, mais solto, desprendido. Talvez até desse por mim a Amar as palavras, pelas palavras e através das palavras. Se calhar seriam estas a razão do meu sentir e do meu viver.

Não me preocuparia mais com as dores do Amor...não passam de palavras que eu, que saberia quais são as certas – nesse Mundo ideal – poderia mudá-las e usar-me delas. E não há nada que uma borracha ou corrector não resolva!

Não ficaria dependente da ilusão do Amor. As palavras, de tão certas que seriam, retratariam tal e qual tudo o que rodeia esse nobre sentimento – ou será apenas uma palavra? – de forma a que dele não mais necessitasse. Para quê? Bastar-me-ia, em caso de necessidade entenda-se, ler e reler essas palavras, quantas vezes bem entendesse, para suprir essa sensação de vazio.

Já vejo e penso mil e um usos para a minha descoberta. Essas palavras certas...

Acontece que essas palavras, as certas e aquelas que não são assim tão acertadas, têm uma vida própria, têm uma vontade própria. Surgem quando lhes apetece, da forma que lhes apetece e seguem pelo caminho que lhes interessa. E nós? Deixamo-nos levar. Pelas palavras, assim como pelos sentimentos. Não somos seus donos nem os podemos comandar.

Assim, por melhores que sejam as nossas intenções, por melhores que sejam os caminhos que racionalmente escolhemos para as nossas palavras e sentimentos, acabamos por ter de nos render ao caminho que nos é imposto por ambos. O que nos leva a escrever, falar e sentir não aquilo que queremos, mas aquilo que estes querem.

Talvez a vida fosse mais simples se eu descobrisse as palavras certas. Ou até se estas existissem. Porventura seria ainda mais fácil se eu gerisse dessa forma todos os meus sentimentos e os Amores da minha vida...

Como assim não sucede, entrego-me às palavras para que estas me levem...