Sunday, August 12, 2007

Assim não, Zé...

Camarada José Olivas,

Num momento de aborrecimento cibernético decidi passear por entre os favoritos que tenho coleccionado ao longo do tempo. Não me refiro aos Amigos, esses não se recordam em momentos de tédio mas sim em todos os momentos, especialmente quando algo do momento actual te traz à memória vivências em conjunto. Ainda esta manhã vi um documentário sobre o Rio de Janeiro (nem que fosse porque a minha mais que querida progenitora me arrancou da cama num acesso de loucura zappinguista) e, claro, rapidamente me teletransportei para sítios e lugares visitados com muitos daqueles a que te referes no texto que escreveste há um mês, e que foi o motivo da minha surpresa: várias vezes passo por aqui, mas nunca dei o primeiro passo.

Fiquei muito feliz por ver que o fizeste. Para mais, com aquele sentimentalismo non sense que faz lembrar o Cântico Negro, de José Régio, “não sei por onde vou,/não sei para onde vou,/sei que não vou por aí” que sempre te caracterizou e que, espero, jamais se te descaracterize… Muito feliz porque deste o primeiro passo que a vertigem dos dias, ou a preguiça das noites, muitas vezes faz com que o adiemos ad eternum.

Sin embargo, sinto-me na necessidade de reclamar que, ao enumerares tantos e tão respeitáveis membros do grupo, simples contribuintes ou amenos leitores, te tenhas esquecido de mim… Serei vítima do que o Alberto João chama (e reclama) insularidade. Sofrê-la-ei, eu, que vivo numa Península, curiosamente a mesma que tu habitas (e não, não me refiro à de Setúbal…). Afinal, ser tão abrangente como dizer “o zé ou o outro zé” é reduzir ao mínimo denominador comum uma experiência que tu prórpio viveste, em que descobrimos que cada Zé era reconhecido pelos demais, tanto pelo fonetismo usado no vocativo, como pela sua identidade.

Referires-te, de modo tão genérico ou descuidado a qualquer dos outros Zés (nota a diferença de trato entre as maiúsculas e as minúsculas) é pior do que agitar o machado de guerra… Queres tu juntar as pessoas ao teu redor, e não lhes dás um trato personalizado??? Com a identidade que cada um construiu, e que preserva, esquecê-lo pode ser perigoso. Repara:

Um dos Zés passou de ser o Zé Artista para ser o “Pai, Zé, não podes ser Pai”… O Zé Bruce passou a ser o “Zé Import-Export” que não importa (de importação) nem exporta. Tu próprio assinaste como Zé Olivas e não como Zé. É essa expressão da identidade que devemos estimular, antes de puxarmos temas de discussão zoológica, zoologia essa que actualmente apenas discutimos e não imitamos, talvez já devido à idade. Senão, atenta no exemplo do jantar no “arranja-me aí”, no passado dia 4 de Maio (sim, lembro-me da data, e tu deves saber o motivo), em que comentámos o comportamento da mesa do lado de modo negativo, esquecendo-nos nós que já fomos assim (e tivemos aquela idade, ainda que eu esteja perto…).

A luta, Zé, a luta e o desafio, será não só encontrar esses velhos Amigos como voltar a juntá-los como um só, em momentos de partilha e confraternização que são cada vez mais escassos e menos ricos (a meu ver) e ainda não sei porquê. A pergunta “onde estão os meus velhos amigos” deveria ser “onde estamos, meus velhos amigos”, não achas?

Deixo o tema para discussão. Um abraço a todos, inclusive ao Anónimo, ao Fascista e à Gaja, que não foram mencionados, embora não por lapso ou omissão, mas cuja presença em meu pensamento me acompanhou ao longo destas linhas.

Como diria o velho Gonçalves, “Amigos, um abraço a todos”.
Zé Emigra

Wednesday, July 11, 2007

O que é isto?

Será que isto ainda existe? ou será que o grupo de discussão zoológica, não tem nada de grupo e tem muito de zoologia......

Afinal quem somos?

O que somos?

Seremos capazes de resistir a fortes convulsões?

Seremos capazes de nos reinventarmos das cinzas?

Tantas perguntas que agora assolam a minha mente, mas estou triste.....
Vou ter com o meu amigo Cali, para uma suposta reunião do grupo do porro... Engraçado.... este grupo poderá facilmente passar a um dueto .... ou.... bem.... ou isto melhora ou daqui a uns tempos isto facilmente se tornará num diálogo, cuja única diferença é o emissor (saudades das últimas inserções caliméricas...).

Onde estais? Por onde andais? estais assim tão longe que não podeis aparecer nem no espaço virtual??? O anónimo? O fascista? A gaja? O zé e o outro zé e... bem e todos os zés que deveriam estar aqui a discutir zoologia e afins??'

termino com uma música tão conhecida do nosso queri e eterno sala.... "Onde estão os meu velhos amigos?????......"

Apareçam que são bem vindos

Thursday, February 16, 2006

34º Aniversário

Há dois dias atrás fiz 34 anos. 34 anos!!! Nunca me imaginei chegar aqui. Não sei se por uma tendência neuroticamente hipocondríaca, se porque simplesmente nunca me imaginei a crescer. Ainda não imagino...

Ainda me parece que há dois dias atrás comemorava os meus 12, 13, 14 anos. Rodeado de bombas de carnaval, de brincadeiras, de amigos. Mas, afinal de contas, já passaram esses anos e mais 12, 13, 14 e por aí adiante – escuso de me alongar pois a conta já vai alta.

De há já algum tempo a esta parte, perdi grande parte do meu entusiasmo por festas. E, quando se trata de comemorações do facto de eu ir envelhecendo, as últimas réstias de algum entusiasmo que eu poderia ter desaparecem por completo. Porque raio hei-de eu festejar as dores nas costas, os cabelos brancos – tenho poucos graças a Deus – a falta de energia e a falta de vontade para festas? Prefiro esquecer a data e deixá-la passar devagarinho. Para ver se ela não me nota, se não repara em mim. Pode ser que os anos passem e eu me mantenha sempre com a mesma idade. Ainda sonho? É das poucas coisas que sobram da infância...

Enfim, como há pouco tempo escrevia noutro texto, as palavras levam-nos por caminhos não escolhidos e eu não queria escrever nada disto. Quer dizer, não era nada disto que queria partilhar convosco. Simplesmente saíram-me as palavras e eu não fui suficientemente rápido para as apanhar e devolvê-las à minha Alma.

Mas afinal o que é que eu queria escrever? Queria escrever que sou um homem de sorte. Mais velho, mais cansado, porventura mais rabugento, mas cheio de sorte.

Estou a milhares de quilómetros de distância de parte da minha família, da maior parte dos meus amigos, de pessoas que muito significam para mim. E, no entanto, pude presenciar inúmeras formas de afecto por parte de tantas pessoas, podendo afirmar, sem a mínima dúvida, que apesar de tudo passei este meu aniversário acompanhado por tanta gente.

Pelas pessoas que me ligaram, escreveram, enviaram mensagens. Algumas que eu esperava, outras que me surpreenderam. Pelas pessoas que se esqueceram da data – como eu me esqueço de tantas datas de outras pessoas – mas que estão sempre presentes. Pelas pessoas que fizeram questão de se esquecer e que vão se esquecendo. Pelas pessoas a quem eu quis dar um abraço naquela data. Pelas pessoas com quem gostaria de ter bebido um copo. Pelas pessoas das quais sinto saudades.

Muitas pessoas estiveram presentes neste meu dia. Até as que estiveram ausentes...Porque as levo comigo para onde quer que eu vá, porque tudo aquilo que eu hoje sou não o seria sem o seu contributo, sem a sua participação neste livro que vamos escrevendo vida afora, porque deixaram uma marca bem forte no meu coração e na minha vida, tão grande como a que eu espero ir deixando nessas pessoas.

Por isso os seus gestos, simples ou elaborados, espontâneos ou pensados, originais ou banais tocaram-me. Porque sinto da parte de toda essa gente um sentimento muito genuíno que me conforta o coração. Nada mais me enriquece do que saber que toquei de alguma forma, em algum momento, essas pessoas. E elas retribuem-me da forma mais sentida. Cada qual à sua maneira...

Como eu ia dizendo...Sou um homem de sorte...Os anos passam, os problemas andam por aí...para a frente e para trás, para cima e para baixo – como aliás tem de ser...para dar graça à vida – e eu vou enriquecendo. Com a amizade, carinho e Amor que semeei - e faço questão de continuar a semear - sem qualquer intenção de obter frutos, e que se transformam nas mais belas flores que me acompanham a vida dia após dia.

Assim talvez valha a pena envelhecer...

As palavras certas

Gostava de descobrir as palavras certas para expressar os meus sentimentos, mas existirão “palavras certas”? Partindo do princípio que eu as descobria, gostaria também de as saber ordenar, de as alinhar umas nas outras de forma a que todas juntas fizessem sentido. Ou, melhor ainda, fizessem sentir...

Assim, um amontoado de letras e símbolos passaria a representar algo mais, um pedaço da minha Alma, um retrato do meu estado de espírito no momento em que escrevesse, ou reproduzisse, essas palavras. Através das frases formadas por essas construções de palavras eu poderia rever os meus sonhos, as minhas dores, os meus Amores e desamores e nunca mais perderia todas essas emoções e sentimentos.

Se existissem essas palavras certas, como tudo seria mais fácil e prático. Usá-las-ia a meu bel-prazer. Ao capturar as sensações boas e más da minha Alma, poderia simplesmente aproveitar-me dessas palavras para esvaziar, armazenar, entregar, ceder, vender, alugar ou emprestar todos os meus sentimentos. Como se estes não me pertencessem, como se eu não lhes pertencesse. Tornar-me-ia mais livre, mais solto, desprendido. Talvez até desse por mim a Amar as palavras, pelas palavras e através das palavras. Se calhar seriam estas a razão do meu sentir e do meu viver.

Não me preocuparia mais com as dores do Amor...não passam de palavras que eu, que saberia quais são as certas – nesse Mundo ideal – poderia mudá-las e usar-me delas. E não há nada que uma borracha ou corrector não resolva!

Não ficaria dependente da ilusão do Amor. As palavras, de tão certas que seriam, retratariam tal e qual tudo o que rodeia esse nobre sentimento – ou será apenas uma palavra? – de forma a que dele não mais necessitasse. Para quê? Bastar-me-ia, em caso de necessidade entenda-se, ler e reler essas palavras, quantas vezes bem entendesse, para suprir essa sensação de vazio.

Já vejo e penso mil e um usos para a minha descoberta. Essas palavras certas...

Acontece que essas palavras, as certas e aquelas que não são assim tão acertadas, têm uma vida própria, têm uma vontade própria. Surgem quando lhes apetece, da forma que lhes apetece e seguem pelo caminho que lhes interessa. E nós? Deixamo-nos levar. Pelas palavras, assim como pelos sentimentos. Não somos seus donos nem os podemos comandar.

Assim, por melhores que sejam as nossas intenções, por melhores que sejam os caminhos que racionalmente escolhemos para as nossas palavras e sentimentos, acabamos por ter de nos render ao caminho que nos é imposto por ambos. O que nos leva a escrever, falar e sentir não aquilo que queremos, mas aquilo que estes querem.

Talvez a vida fosse mais simples se eu descobrisse as palavras certas. Ou até se estas existissem. Porventura seria ainda mais fácil se eu gerisse dessa forma todos os meus sentimentos e os Amores da minha vida...

Como assim não sucede, entrego-me às palavras para que estas me levem...

Thursday, November 10, 2005

Máscaras - Parte II

Em tempos escrevi sobre Máscaras...Referia-me no geral a máscaras de conveniência que todos usamos no dia a dia. Máscaras que usamos para ocultar as nossas inseguranças e que nos protegem do Mundo que nos rodeia. Máscaras que se moldam de tal maneira ao nosso rosto que se chegam a confundir com o mesmo. Mas, no fundo, Máscaras que são parte de nós e que representam tudo aquilo que somos, no íntimo e em grupo.

Hoje apetece-me voltar à questão das Máscaras, mas abordando-as por outro prisma. As Máscaras que rapidamente colocamos e tiramos, dependendo da pessoa e da situação que encontramos. Ao invés de ser uma Máscara pregada nas nossas caras, pensei na situação de necessidade que nos obriga a trocar de Máscara à velocidade de um transformista.

Assim, tal como estes, passamos a ter várias faces. Passamos a assumir várias expressões, vários sentimentos, várias posturas, dependendo do nosso interlocutor. Assim, falando exactamente do mesmo assunto, somos capazes de colocar um sorriso genuíno (as máscaras são tão boas...), um olhar triste, um franzir de testa pensativo, o rosto repleto de lágrimas ou soltar uma sonora gargalhada. Tudo variando consoante o destinatário dessa forma tão sui generis de comunicação e consoante o objectivo que, consciente ou inconscientemente, queremos atingir.

Nestes casos, um tudo ou nada mais patológicos, ao usarmos essa quantidade tão grande de máscaras, somos forçosamente obrigados a assumir a mentira, ou multiplicidade se preferimos ser brandos, para que as nossas palavras e convicções, condigam com a expressividade que queremos empregar. E julgo que, por vezes, chegamos quase a acreditar que estamos a ser honestos, tão grande é a força que empregamos no uso dessas máscaras. E que, por alguma razão inexplicável, não somos capazes de perceber que uma das máscaras (expressões e palavras incluídas) contraria a outra e assim sucessivamente.

Atingimos assim outro patamar...o dos personagens. Assumimos outra personalidade, outra postura, outro corpo e outra Alma. Como defesa ou por puro instinto. Dessa forma, tudo volta a ser permitido e ético aos nossos olhos iludidos. De nada nos custa ser uma personagem sorridente à esquerda, choroso à direita, confuso para cima e decidido para baixo. Criamos várias personagens que possam assumir todos os papéis que queríamos só para nós.

E no final? No final, depois de vivermos todos os Actos e Cenas da nossa vida, olhamos para trás e reparamos que quem agradece as palmas e recebe os louros pela actuação são os personagens que nós criámos e nunca os Actores que quisemos ser. E que os espectadores olham para nós como ilusões de uma vida que nem sequer fomos capazes de viver. E nem sequer encontramos o nosso verdadeiro Eu.

Valerá a pena?

Wednesday, October 12, 2005

Os julgamentos que fazemos na vida...

Que péssimo hábito temos de julgar o Mundo à nossa volta. Julgamos este e aquele e o outro escondido lá no canto. Porque fez isto, porque fez aquilo, porque hesitou, porque não quis esperar, porque não assumiu, porque não foi verdadeiro, porque não respeitou esta ou aquela situação.

No fundo, achamo-nos senhores da nossa verdade, da nossa moral, da nossa ética. Mas julgamos os outros. É mais fácil...Se fôssemos nós faríamos desta ou daquela maneira, aquela é certa, esta é errada, aquele é um pulha, este é um calhorda. Como foi este ou aquele capaz de fazer isto ou aquilo?

Limitamo-nos a dar lições de moral a todos os que nos rodeiam. E condenamos, sem sequer os ouvir, sem saber quais foram as razões que os conduziram, sem saber as atenuantes. Aos olhos da nossa moral, sempre da nossa, censuramos todo e qualquer comportamento que foge da normalidade. E ai de quem defenda este ou aquele comportamento...Não há defesa possível, não há qualquer perdão...

Somos intransigentes. Com orgulho. Com a nossa razão. Com a segurança de quem nunca se veria nessa situação.

Até que, por mero acaso, por mera posição dos astros, tudo muda. Os figurantes mudam de papel. Os acusadores passam ao papel de acusados. E encontram todas as justificações que antes negavam aos que eram acusados. E, novamente senhores da sua moral, sentem-se justos, correctos e éticos. Tanto quanto se sentiam enquanto acusadores.

Os julgamentos ganham uma lógica completamente diferente. As leis mudam, as penas para a acusação deixam de ter qualquer significado. E a moral...? Desaparece como que se tratasse de um mero passe de mágica. Como se tudo se transformasse ao sabor do que os nossos olhos vêem, do que a nossa Alma sente, do que a nossa vida nos traz.

Será que o ser humano terá de ser eternamente egocêntrico? E toda a sua moral, ética e comportamento são classificados apenas de acordo com um padrão definido conforme as próprias e pessoais circunstâncias?

Não tenho qualquer resposta a estas perguntas. Há muito que tenho o hábito de não julgar ninguém...

Não se pode ter tudo...Então porque tentamos?

Há muito tempo que estava a escrever este texto na minha cabeça. Ia pensando na forma de o começar, nos conceitos que nele colocaria, nas frases que seriam utilizadas mas, acima de tudo, na principal questão que dá título ao texto.

Hoje, pelas mais variadas razões, a frase tem para mim uma muito maior relevância do que quando comecei a pensar (escrever) este texto. Hoje, sei que escreverei um texto diferente. Talvez menos humorístico, certamente mais sentido.

É do conhecimento comum e até da sabedoria popular que “não se pode ter tudo”. E toda a gente, eu incluído, tem noção clara da lógica desta frase. Por isso temos de compreender que ao ganharmos algumas coisas seremos obrigados a perder outras. É a Lei da Vida.

Todos sabem o quanto me fez bem e o quanto gosto de viver no Rio de Janeiro. Para tal, tive de abdicar de tanto que eu gostava em Portugal. “Não se pode ter tudo”!!! Estou certo que todos os que me lêem já experimentaram alguma sensação deste tipo, já experimentaram o peso de uma escolha que implica a perda de outra...”Não se pode ter tudo”!!!

Penso que a esta hora estaremos todos de acordo e concordamos com esta máxima. Deveríamos por isso valorizar aquilo que temos, dar importância àquilo que temos, acarinhar aquilo que temos, ao invés de perdermos tempos infindos à procura de algo que nem sequer sabemos bem o que é e se se trata de algo que verdadeiramente queiramos ter.

Mas o Homem - ser misterioso -, ou alguns elementos mais complicados desta espécie, persiste em correr atrás do TUDO, daquele TUDO que sabem, ou deveriam saber, que nunca poderão ter. Raramente se contenta com o que tem, persegue sistematicamente o inatingível, o que dificilmente alcançará, o sonho mais absurdo, a total ausência de realidade. Sempre o fez e sempre o fará.

Se em inúmeros casos essa busca incessante, essa loucura, essa obstinação conduziu a sucessos incomparáveis e fez com que muitos fossem considerados visionários, creio que existirão muito mais casos de fracassos, fracassos anónimos, fracassos que não ficaram para a História Universal, mas que ficaram para sempre – estou certo – no coração daqueles que os sofreram na pele. Fracassos de quem quis tudo e acabou por perder aquilo que verdadeiramente importava. Como também diz a sabedoria popular “quem tudo quer...tudo perde”...

Não é fácil sentirmos na pele um destes fracassos, sentirmos que algo nos afastou daquilo que mais queríamos e que, por ignorância, distracção, ou simples estupidez, achámos que nunca fugiria de nós. Dói muito essa noção do erro...

Friday, September 30, 2005

É triste mas é verdade...

Escrevo estas linhas porque me sinto frustrado, deprimido e, posso até dizê-lo, angustiado. É assim um desabafo que faço comigo mesmo mas que, ao escrevê-lo, tento que funcione como se conversasse com alguém que me entenda.

Porventura as pessoas que leiam estas linhas e que me conheçam pensarão que se trata de mais um chilique (é chilique ou xilique??) da minha parte como conseqüência de aqui ter ficado só, depois da partida para Portugal da minha mulher e do meu filho. Poderia até ser...não é o caso...

Poderiam ser também as frustrações acumuladas do trabalho que me (nos) vão enchendo até não agüentarmos mais. Poderia ser hoje o dia em que tinha atingido o meu limite. Infelizmente não se trata disso.

Haveria ainda a hipótese, entre tantas outras que poderíamos aventar, de se tratar de um vazio de sentimentos que surge dos sonhos não realizados e, portanto, reprimidos. Seria uma hipótese coerente...

Contudo, o que me deixa neste estado, por mais estúpido que isso pareça – e parece...até para mim mesmo – é a derrota do Sporting frente a uma equipa nórdica de duvidosa reputação (mesmo que já tenha eliminado o Benfica), a sua eliminação de uma Taça na qual prometíamos um pouco mais, mais um desaire num ano de festa do MEU clube, a falta de vontade e empenho dos jogadores, o assobio dos adeptos, as falhas sucessivas, a falta de inteligência (se calhar minha...) nalguns momentos, etc, etc, etc.

Ao acabar o referido jogo, dei por mim desconsolado, abatido, desmotivado. Como se eu tivesse tomado parte naquela partida de futebol, naquele jogo – aquilo é um jogo, não é? Como se eu fosse também responsável por aquela derrota. Eu, que assisti impotentemente ao descalabro, senti-me envergonhado por tudo aquilo que fizemos e pelo que deixámos de fazer. Mas porquê??? Porque diabo eu e milhares de adeptos pelo Mundo fora teremos de nos sentir assim por causa de um mero jogo???

À medida que os minutos íam passando e a dor aguda dava lugar a um mal estar mais pesaroso (passava da enxaqueca à depressão), tentei raciocinar. Tentei ser lógico. Eu não sou responsável por aquela derrota. A minha vida não mudará pelo facto de o Sporting ganhar ou perder. Não perdi qualquer prémio de jogo.

Daí passei para a segunda fase do pretenso racionalismo. Olhar para o Mundo à minha volta e para as verdadeiras desgraças. Grave foi o furacão Katrina. Doloroso foi o Tsunami. Tristeza de verdade é que se vê nos olhos de uma criança com fome. Angústia é a morte de uma pessoa que nos é querida...

Lá pensar nisso, juro que pensei...Mas, feliz ou infelizmente, para o bem e para o mal, os nossos pensamentos não mandam na nossa Alma. Por isso, que me desculpem aqueles que passam fome, aqueles que perderam os familiares em desastres naturais, aqueles que, por esta ou por aquela razão têm uma verdadeira razão para estar tristes, mas hoje, quando me deitar, não será neles que eu vou pensar ao fechar os olhos. Quando os fechar, antes de começar a sonhar, sei que verei a saída em falso do Nélson, a bola na trave do Pinilla, a falha do Polga. E, se tiver sorte, conseguirei não chorar...

Não é bonito sentir assim. Hoje posso afirmá-lo que acho tudo isto ridículo. O jogo em si não tem a mínima importância. Mas sinto-o. E não serei apenas eu. Milhares de pessoas ainda estão em estado de desespero. Outros milhares estarão em igual situação pela derrota de outros clubes. Por razões óbvias hoje estarei solidário com eles. No meio destes “pensamentos” vi-me obrigado a pensar que, nas próximas vezes que o clube de amigos meus passe por situações idênticas, por mais que isso me possa fazer sorrir, terei de me solidarizar com eles, pois será a vez deles de se sentir assim...É um mundo de loucos...

É triste...mas é verdade...

Thursday, September 22, 2005

Finalmente, cá vai disto!...

Sendo o Grupo do Porro uma Instituição de Utilidade Pública, venho por este meio recorrer a essa dita utilidade para extravasar um pouco daquilo que vai cá dentro… Espero não ser levado a mal… E se for, paciência, a Amizade verdadeira tudo perdoa.

AS PALAVRAS QUE NUNCA TE DIREI

Numa fria noite de sábado, do outro lado da linha, lá estavas tu. Era a tua 7ª tentativa de contacto, depois de 6 chamadas não atendidas. Estremunhado, atendi, desperto de uma daquelas sonecas no sofá com a lareira a crepitar como som de fundo, pois a TV há muito que se tinha cansado de falar sozinha…
O teu pedido era claro como água: “só a ti te posso pedir isto, posso contar contigo?”. Naturalmente, acedi. Longe estava eu de saber que esse momento iria mudar, e de que maneira!, o curso da minha vida…
Foi a porta para um Mundo novo, cheio de coisas que eu sabia existir, mas que não conhecia. Contigo conheci muito do meu novo mundo, cresci, aprendi, sofri, chorei, sorri. Durante todo o tempo que nos mantivemos juntos, as 6as feiras tornaram-se um dia especial, aquelas horas intermináveis de conversa à beira-rio ou à porta de casa às tantas. Melhor que as 6as, apenas as transposições para mais dias da semana, que fomos posteriormente incluindo no programa das festas.
Olhares cúmplices trocados intermináveis vezes quando jantávamos com amigos, aquela mítica frase “tu percebeste” que repetíamos vezes sem fim, as largas dezenas (não terão sido mesmo centenas) de Bombays tónicos, as empadas de perdiz, o aprender a gostar de vinho…
Mas não foram só os momentos desta partilha… quantas vezes, fulos do emprego, crescemos ao ver pelos olhos (e boca) do outro que a neura que trazíamos agarrada, impregnada mesmo, tinha uma origem bastante razoável, ainda que não gostássemos? Quantas vezes isso não nos enriqueceu, mostrando que o Mundo é muito maior do que parece? E assim crescemos, desenhando projectos e a vendo-os acontecer. De tal modo, que hoje estou num deles, e ainda bem…
O problema, o problema é que tu há muito saíste… e eu não sei bem quando nem, muito pior, porquê… De um momento para o outro, deixámos de falar, de saber um do outro, de sorrir, de partilhar. Eu deixei…
E passei a trazer comigo apenas uma dor que apenas comigo fala, sem saber de ti, sem nada. Ao longo do tempo, a frustração foi crescendo, apenas reduzida uma vez há uns meses, quando pela primeira vez fui a Lisboa. Nessa altura, as migalhas que me serviste consolaram-me, talvez por não saber que o eram. Hoje…
Hoje, passados uns meses e algumas datas como o aniversário daquele dia de Abril no qual, um ano antes, e por minha causa, te vi verter uma lágrima, a inquietude deu lugar à frustração, esta à tristeza e, por fim, à decepção.
Foi bom, mas foi um engano. Ficou a lição. Felizmente esvai-se o vazio. Nada mais me sai. Na verdade, pouco mais há a dizer. Adeus.